Publicador de Conteúdo

Menu Display

Juvenal Pereira, presidente do IMIJ - SIJ já chegou a todas as comarcas. Não encontrámos nenhuma resistência

21-12-2025

Num sector onde a mudança é lenta por natureza, o IMIJ veio acelerar um processo há muito esperado. A digitalização da Justiça cabo-verdiana tornou-se uma realidade.

Criado em 2024, o Instituto de Modernização e Inovação da Justiça (IMIJ) nasceu com um mandato claro: modernizar, integrar e tornar mais eficiente todo o ecossistema da Justiça cabo-verdiana. Para além da gestão e administração operacional do Sistema de Informação da Justiça (SIJ), cabe-lhe assegurar a modernização dos sistemas e subsistemas de Registos, Notariado e Identificação, bem como dos serviços prisionais e demais componentes do sector. O SIJ é o projecto mais estruturante deste novo ciclo. O seu desenvolvimento é anterior à criação do IMIJ, mas foi no último ano que que ganhou o impulso decisivo. Hoje, todas as 17 comarcas do país já utilizam o SIJ na tramitação digital do processo penal, garantindo cobertura nacional e um nível de uniformização até agora inédito. Nas palavras do presidente do IMIJ, Juvenal Pereira, o objectivo é atingir uma integração plena de todos os órgãos judiciais num horizonte de cinco anos e garantir, em três, um SIJ estável, consolidado e capaz de reduzir substancialmente o volume de papel e de consumíveis ainda utilizados.

Navegam num mar de equilíbrios delicados, entre o desafio da modernização tecnológica e a autonomia intrínseca aos órgãos da Justiça. Como é que têm conseguido esses equilíbrios?

É uma excelente questão. O trabalho foi projectado num quadro de cooperação, de diálogo permanente com outros actores e entidades e autoridades do sistema judicial, sendo certo que o seu papel se resume ao âmbito tecnológico. De facto, a Justiça é um sector grande, com vários players, e a articulação tem de ser muito sensível, mas tem sido muito boa, porque temos tido o apoio de todos os órgãos que fazem parte do sistema judicial. E agimos, também, naturalmente, em estreita articulação com a tutela.

Toca num ponto que me parece importante. A Justiça não se resume aos tribunais e combina um conjunto de actores, com os quais o IMIJ também trabalha.

Sim, sim. A Justiça é um sector grande, tem vários actores e tem de haver articulação. Por isso mesmo, temos conseguido avançar muito rapidamente, num ano, com resultados muito satisfatórios, tendo em conta que ainda estamos na fase da implementação, consolidação e expansão do próprio Sistema de Informação da Justiça (SIJ).

A partir de que pressupostos começaram a construir essa transformação digital da Justiça?

O pressuposto advém, sobretudo, da necessidade de todos perceberam que a Justiça poderia funcionar melhor se alicerçada em meios tecnológicos. Estamos a falar de sistemas, subsistemas, aplicações, equipamentos, infra-estruturas. Daí que os próprios desafios deste processo se resumam a isso mesmo: criar uma instituição como o IMIJ, dotada de recursos humanos que são profissionais de tecnologias de informação e comunicação, para criar as condições tecnológicas para que os profissionais da Justiça possam ter meios e condições para realizar, da melhor forma possível, os seus serviços.

Julga que a existência do IMIJ foi fundamental para que, desta vez, o processo de digitalização tenha avançado rapidamente?

Foi fundamental, sem dúvida nenhuma. Não havia essa estrutura vocacionada para o desenvolvimento tecnológico. Essencialmente, tem a ver com a configuração, com a visão política, posso dizer assim. E, do ponto de vista tecnológico, uma liderança que seja capaz de levar o projecto a outro nível.

O SIJ é a espinha dorsal da Justiça digital. Na prática, de que forma o sistema responde às necessidades dos tribunais e dos diferentes operadores da Justiça?

Efectivamente, o SIJ é o principal sistema dentro da edificação do sistema judicial na perspectiva digital, tecnológica. Em tão pouco tempo, conseguimos fazer a implementação do sistema em todas as comarcas de Cabo Verde. Estamos a falar de 17 comarcas, incluindo a comarca de São Miguel, inaugurada recentemente. De Santo Antão à Brava, todos os juízes, procuradores, oficiais já tramitam digitalmente o processo penal através do SIJ. E também já temos, nesta altura, só para ter uma ideia, cerca de 18 mil autos, que provêm da Polícia Nacional e da Polícia Judiciária, totalmente digitais. Esse volume traduz-se numa estimativa de poupança de cerca de um milhão de folhas de papel. Temos hoje 17 comarcas, todas elas integradas em torno do mesmo sistema, partilhando informação entre colegas e tramitando o processo digitalmente. Todos os profissionais da jurisdição penal já também utilizam mecanismos de assinatura digital qualificada, que é o mecanismo utilizado a nível internacional nesse tipo de prática. Por outro lado, já estamos na fase final de formação e preparação para a produção de uma versão de lançamento da tramitação digital do processo civil e, a partir daí, também os magistrados da jurisdição cível passarão a ter as mesmas condições de trabalho, a mesma facilidade e a mesma celeridade.

Têm encontrado resistência? Sabemos que mudar práticas enraizadas nem sempre é fácil.

Muito sinceramente, até fiquei surpreendido pela positiva nesse aspecto. Não encontrámos nenhuma resistência à utilização do sistema. Muito pelo contrário, encontrámos profissionais que já estavam conscientes da importância e da necessidade de utilizar o sistema e que deram contribuições positivas para melhorarmos algumas funcionalidades.

Falemos sobre os ganhos, aqueles que já são mensuráveis e os que se perspectivam.

Para nós, o maior ganho é colocar os profissionais da Justiça a trabalhar em rede, desde a polícia até ao último juízo, porque o SIJ não se cinge aos tribunais de primeira instância. É um sistema muito bem concebido, permitindo que, mais tarde, tribunais de outros níveis possam também integrar o sistema. Antevejo todos os órgãos do sistema judicial e judiciário cabo-verdiano devidamente integrados no SIJ num horizonte de 5 anos e um SIJ estável e consolidado num horizonte de 3 anos, com redução gradual e substancial do volume de papel e de outros consumíveis. Com o sistema, tudo fica mais rápido e haverá maior disponibilidade para os profissionais da justiça se dedicarem a actividades mais importantes.

Parece-lhe razoável dizer que, depois de termos um SIJ devidamente consolidado, quer no processo penal, quer no processo civil, teremos uma justiça melhor e mais rápida?

Acredito que sim, porque o SIJ é um dos instrumentos fundamentais para termos uma Justiça mais rápida. É uma visão política e tecnológica que, do meu ponto de vista, é acertada. Claro que, depois, outras acções e outras participações terão de convergir com aquilo que é a disponibilidade do sistema e a sua performance para que, no conjunto, seja alcançado o objectivo de celeridade na realização da Justiça.

Gostava de olhar para o futuro. Certamente que o SIJ sofrerá actualizações e evoluções ao longo dos anos, à medida que as necessidades e a disponibilidade tecnológica assim o determinem. Falo, por exemplo, da questão da inteligência artificial (IA). O que é que antecipa, não só no SIJ, mas na Justiça, em geral?

Por ser profissional da área das tecnologias, da informática, tenho acompanhado a evolução da IA um pouco por todo o mundo, em vários sectores, e no sector da Justiça, particularmente. Como sabe, a IA não é uma área científica e tecnológica nova, existe desde os anos 50. Nos Estados Unidos, temos soluções de IA que são utilizadas no campo da Justiça há várias décadas. Estão a ser criadas soluções de agentes assistentes muito interessantes, que se podem aplicar também ao sector da Justiça, sendo certo de que o uso da IA não é para realizar a Justiça, mas uma ferramenta que permite a organização, a estruturação de dados e documentos de primeira linha. A utilização da IA como ferramenta para facilitar a organização da informação, muitas vezes com uma precisão muito superior à capacidade humana, com margem de erro muito reduzida em relação àquilo que os humanos podem cometer. Não para agora, mas estamos a explorar esta tecnologia, para ver como é que o seu uso poderá, de forma controlada, trazer mais benefícios, mais ganhos e mais celeridade ao nosso sistema judicial. Se eu for um profissional treinado, com prompts próprios consigo instruir a IA a elaborar um requerimento ou uma declaração ou um despacho nos termos que quero e ela é capaz de fazer um documento de 20, 50 páginas, ou até mais, em fracções de segundo - se bem instruída. Eu, enquanto profissional de Justiça, o que me caberá depois é a validação do documento produzido. Em vez de demorar uma semana, 15 dias, posso, em apenas 5 minutos, ter um documento consistente, cuja validação e finalização dependem de mim.

Já aqui falou sobre o desafio do alargamento do SIJ ao civil, mas pedia-lhe para olharmos um pouco mais à frente. O que antecipa?

No horizonte de 5 anos, vejo um sistema totalmente implementado e consolidado, com todas as suas peças a funcionar devidamente, com todos os processos digitais, com todos os processos físicos já digitalizados e integrados no sistema, com todos os profissionais de Justiça a trabalhar no sistema, sem recurso ao papel ou com recurso mínimo. Um sistema robusto, que nos permitirá explorar, como disse há pouco, a utilização de IA, sobretudo no campo de processamento de língua natural. Vejo a possibilidade de informatização das salas de audiência, em que qualquer interveniente em sala, o sistema seja capaz de, automaticamente, gerar documentos, relatórios ou outro tipo de documentos a partir desse áudio. Uma sala de audiência inteligente. Antevejo um sistema que corresponderá àquilo que é a ambição de Cabo Verde para a transformação digital do sector da Justiça. Ousaria dizer que teremos condições para, caso todas as acções sejam desenvolvidas de forma convergente, reduzir drasticamente as pendências, porque a produtividade será maior e a celeridade também. Em cinco anos, seremos capazes de, em conjunto com todas as partes, todas as entidades, reduzir substancialmente as pendências e aumentar drasticamente a celeridade.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1255 de 17 de Dezembro de 2025.

Publicador de Conteúdo

Presidência

Governo

Assembleia

Tribunais

CIDADANIA

Publicador de Conteúdo

Provedor de Justiça

Casa do Cidadão

Diáspora Digital

Empreendedorismo Digital

Eleições

Defesa do Consumidor

Proteção de Dados

Previdência Social

Cadastro Social

IMPRENSA

Publicador de Conteúdo

Inforpress

RTC

RCV